Morcegos: mocinhos ou bandidos?

12 de julho de 2018
Por Marcelo Aparecido Marques, Biólogo pela Universidade Paranaense, Especialista em Microbiologia e suas interfaces na área da saúde, Especialista em Educação Ambiental, Mestre e Doutorando em Ciência Animal com ênfase em Produtos Bioativos pela Universidade Paranaense

 

Todas as vezes que falamos sobre morcegos a primeira coisa que vem em nossa mente são as estórias de terror ou ambientes sombrios e escuros.

 

Mas esses animaizinhos são do mau mesmo?

É o que descobriremos!

Morcegos são mamíferos assim como cães e gatos. A diferença está em suas patas dianteiras. Elas foram transformadas em asas! Assim, os morcegos utilizam suas mãos modificadas para voar. Possuem vários tamanhos e cores diferentes. No Brasil, temos espécies que apresentam pelagem vermelha, laranja e alguns possuem até listras.

Como são dotados de capacidade ultrassônica como os golfinhos, esses animais podem se orientar no ambiente sem a necessidade de claridade. Portanto, preferem sair à noite para se alimentar.

 

Alimentação

Outro assunto delicado em se tratando de morcegos é exatamente sua comida favorita. E como sabemos a resposta é: Sangue!

Na verdade não é bem assim. Existem mais de 1000 espécies de morcegos no planeta e, apenas 3 delas se alimentam de sangue. O restante das espécies preferem os mais variados cardápios como: frutas, insetos, néctar e, até peixes.

Os animais que possuem esse hábito alimentar são chamados de hematófagos sendo que somente uma espécie se alimenta de sangue de mamíferos, as outras duas espécies, se alimentam exclusivamente de sangue de aves.

Ataques de morcegos vampiros aos humanos são muito raros, no entanto, podem acontecer. Animais domésticos como o gado e os suínos estão mais sujeitos a eles.

Os hábitos alimentares mais comuns entre as espécies de morcegos que vivem próximos aos humanos são a frugivoria (alimentação a base de frutas) e a insetivoria (alimentação à base de insetos). Os comportamentos relacionados aos hábitos alimentares são notadamente importantes, uma vez que esses animais acabam dispersando as sementes das plantas que se alimentam e controlando a população de insetos.

 

Importância

Apesar do que muita gente imagina, morcegos são muito importantes sim!

Como já podemos imaginar depois de descobrir alguns de seus hábitos alimentares, eles trabalham como reflorestadores competentes. Cerca de 25% das espécies de vegetais das florestas têm suas sementes dispersas por eles. Algumas plantas são tão dependentes desses animais que suas sementes só conseguem germinar depois de passar pelo sistema digestório dos morcegos.

Em se tratando de controle de insetos e outros animais, eles se mostram imbatíveis de novo! Cada morcego insetívoro chega comer 600 insetos por noite, incluindo o temível Aedes aegypti (transmissor da dengue, zika e chikungunya) e aracnídeos como aranhas e escorpiões.

Mais raro, mas não impossível, algumas espécies de morcegos podem comer pequenos roedores e até outros morcegos.

Desse modo, esses animais são importantíssimos para o meio ambiente, para a agricultura e até mesmo para a economia de forma geral.

 

Ataques de morcegos

Os morcegos hematófagos não preferem sangue de humanos para sua alimentação e, dificilmente vamos nos deparar com um animalzinho destes. Só na falta extrema de outros animais para se alimentarem.

No entanto, depois de anoitecer nas zonas rurais e urbanas, sempre observamos morcegos sobrevoando ou dando rasantes próximos as árvores frutíferas ou postes de iluminação. São morcegos se alimentando! Nessas situações, quando alguém se aproxima, a impressão é que eles vão atacar. Na verdade, esse comportamento é uma forma de tentar afugentar o visitante para que eles possam comer sossegados.

Nunca irão de fato, trombar nas pessoas. Sua ecolocalização permitem que façam manobras dificílimas e calculadas. Dessa maneira, o que parece ataque é uma defesa!

 

Morcegos em casa! O que fazer?

Com o desmatamento e a urbanização, a sobrevivência de algumas espécies animais em ambientes naturais vem se tornando cada vez mais difícil. Muitos deles se adaptam a essas modificações e acabam convivendo muito próximo aos homens.

No caso dos morcegos, algumas espécies aproveitam as construções humanas para se alojarem. Isso porque, além de refúgios seguros e confortáveis para eles, existe muito alimento disponível também, como as plantas frutíferas usadas na arborização urbana e os insetos atraídos pela iluminação das cidades, tornando um ambiente perfeito para eles.

Em se tratando de morcegos em casa, existem duas situações distintas: morcegos alojados em alguma parte da residência, como forro, porões, etc, e, morcegos caídos ou que adentram acidentalmente as casas.

Na primeira situação, em regra geral, não há problemas de coabitar com morcegos desde que se tenham alguns cuidados. No entanto, é importante que os moradores não toquem nas acumulações de fezes e urina e nunca mexam em morcegos que possam aparecer ao seu alcance.

Em casos de elevados estragos ou de perigo para a saúde única, poderá ser necessário desalojar os morcegos, para que se possa depois tapar os locais de acesso. Essa medida só é indicada em casos onde estão presentes colônias muito numerosas. Saliente-se que a retirada dos morcegos seja acompanhada por profissionais capacitados e, que os animais sejam liberados com o mínimo de estresse possível visto que, são animais silvestres e protegidos por lei.

Já na segunda situação, o que ocorre é que na maioria das vezes os morcegos entram nas casas por engano e, nesse caso, devemos facilitar a sua saída. Se o morcego for encontrado durante a noite, deve-se fechar a porta do cômodo onde ele se encontra para impedir a sua passagem para o resto da casa, abrir as janelas e desligar a luz, o que permite que o morcego saia sozinho. Se o morcego for encontrado pousado no interior da casa durante o dia e não parecer ferido, deve ser capturado com uma caixa ou outro material que evite a mordedura do animal e libertado durante a noite. Lembrando é imprescindível não manter contato direto com o morcego. Até ser libertado, ele deve ser mantido em caixa de papelão com furos. É aconselhável colocar um pano no interior do compartimento para o morcego se agarrar e sentir mais seguro, assim como um pequeno recipiente com água para ele beber. A caixa deve ser colocada em local fresco e silencioso até o momento da libertação. Se o morcego estiver ferido ou não voar nessa noite, deve-se entrar em contato com o órgão responsável pelo controle de Zoonoses de sua região e aguardar novas orientações.

 

Doenças

Assim como qualquer outro mamífero, morcegos podem sim ser transmissores de infecções. Entre as doenças relacionadas com esses animais a Raiva é a mais comentada.

Ao contrário do que se pensa, não só os morcegos que se alimentam de sangue podem transmitir raiva, mas também, espécies não hematófagas. Destacando que cães e gatos, por serem mamíferos e terem uma relação de proximidade conosco, acabam sendo mais importantes para a transmissão do vírus que o próprio morcego. Por isso a necessidade de manter a vacinação dos animais de estimação em dia.

 

Concluindo

De forma geral, os morcegos sempre foram vistos de forma preconceituosa pelos humanos. Erroneamente relacionados a vampiros e estórias de assombração, esses animaizinhos tão intrigantes e interessantes, são cercados de mitos o que dificulta muito sua proteção.

Entender que parte do equilíbrio do meio ambiente se deve a importância que os morcegos exercem a ele é um dos caminhos para uma conservação efetiva desses animais e a garantia da manutenção de um ambiente saudável.

 

2 comentários em “Morcegos: mocinhos ou bandidos?

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